Videochamadas aproximam quem vive em casas de acolhimento de seus familiares que, apesar da distância, acompanhar pais e avós
Por QUEILA ARIADNE
12/10/20 - 03h00
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De um lado, Leila Neto usa o celular para matar saudade da mãe, Maria Altina, que usa o tablet disponibilizado pelo Instituto Geriátrico da Santa Casa (Igap) para falar com a filha
Foto: Flávio Tavares - O TEMPO

Nazir aproveita a ferramenta da videochamada para conversar com a mãe, Silvana Rossi
Foto: Flávio Tavares - O TEMPO

Silvana Rossi aproveita a ferramenta da videochamada para conversar com os filhos e saber notícias da família, enquanto sonha com o momento de apertar as bochechas dos netos
Foto: Flávio Tavares - O TEMPO

Pelo celular e tablet, José de Brito mantém a conexão com a família e acompanha a bisneta Thayla, que vai fazer um ano em outubro
Foto: Arquivo Pessoal

Pelo celular e tablet, José de Brito mantém a conexão com a família e acompanha a bisneta, que ainda não pôde conhecer pessoalmente
Foto: Igap Santa Casa BH- Divulgação‹›
"Ai de mim se não fosse o celular para enfrentar essa pandemia". O desabafo é de Silvana Rossi, uma jovem senhora de 63 anos, que fez da tecnologia uma fiel companheira para amenizar a saudade dos filhos e netos. “Antes, eles vinham me visitar sempre. Agora, só os vejo de longe. O que tem salvado são as videochamadas e as conversas pelo WhatsApp. Se não fosse por isso, eu estaria ainda mais triste”, conta Silvana, que, desde março, vê a família apenas no portão do lar de idosos onde mora, em Belo Horizonte.
Silvana faz parte do grupo em que o uso da internet tem crescido mais nos últimos anos. Segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2017 para 2018 o percentual de idosos com esse acesso aumentou 24%, chegando a 38,7% dessa população.
“Ainda bem que temos essa ferramenta. E assim eu vou levando, rezando e pedindo a Deus para que a pandemia acabe logo e eu possa abraçar, beijar e apertar as bochechas dos netinhos”, destaca Silvana.
“Sinto falta de pegar minha mãe e levar para passear. Antes eu levava meu filho de 2 anos para visitá-la. Agora, que a rotina é outra, o telefone tem ajudado demais nesse contato”, conta Nazir Cheik, filho de Silvana. Há um ano, ela mora no Instituto Geriátrico Afonso Pena (Igap), do grupo Santa Casa BH. Lá, são 25 idosos de 63 a 101 anos que, assim como Silvana, têm contado com a tecnologia para preencher o vazio deixado pelas restrições impostas pela pandemia.
“Antes, as visitas dos familiares eram liberadas todos os dias. Também recebíamos muitos voluntários, como cabeleireiros, manicures, grupos escolares e religiosos. Gente que vinha tocar, gente que organizava festas de aniversário. Mas, por segurança, tivemos que restringir. E aí surgiu a ideia do tablet”, explica a coordenadora do Igap, Alessandra Amorim.
Com um tablet, o instituto organiza conversas entre os idosos e os familiares. “Eles estavam sentindo muito a ausência da família. E o tablet ajuda demais a manter a conexão. Às vezes, quando estão mais nervosos ou chateados, nossa equipe faz a ligação, o que ajuda bastante”, diz Alessandra.
A ajuda na pandemia não é só para o idoso, mas também quem está do outro lado. Maria Altina Ferreira, 83, está no Igap há dois anos e meio. Para a filha dela, Leila Neto, 61, o tablet tem sido a solução para lidar com a saudade. “Eu vou toda semana, mas só posso ficar do portão. Ela não entende, fala que quer me abraçar, é muito triste. Com o tablet, eu consigo acompanhar bem de perto, apesar de estar longe. Eu vejo como ela fica feliz com as videochamadas. É um jeito de ela entrar na minha casa”, conta Leila. “Eu gosto de abraçar, de brincar. Quero que tudo isso passe rápido para eu poder passear”, afirma Maria Altina.
A psicóloga do Igap, Cátia Faria afirma que a tecnologia tem sido a tábua de salvação. “Sem os recursos digitais, eu não sei o que seria dos idosos durante o isolamento. Esse mecanismo tem sido fundamental para evitar o adoecimento mental dos nossos idosos. Além de matar a saudade, eles também são estimulados, pois precisam aprender a usar as ferramentas”, observa Cátia.
Cada caso é avaliado junto à equipe multidisciplinar do instituto, mas as restrições às visitas vão continuar, pela segurança dos moradores no Igap. Mesmo com todo o rigor, seis idosos e cinco funcionários contraíram a Covid. “Como temos o controle de temperatura e saturação, descobrimos todos os casos no início, e eles rapidamente entraram em isolamento. Se não fossem todos os cuidados, poderia ter sido muito pior”, diz Alessandra.
Expectativa é grande para conhecer a bisneta
José Ferreira de Brito tem 68 anos. Há 28, ele mora no Instituto Geriátrico Afonso Pena (Igap). Desde março, o lar para idosos restringiu as visitas. Alguns familiares vão até o portão, para ver os parentes de longe. No caso de Brito, as restrições são ainda maiores. Em 1982, ele sofreu um acidente no canteiro de obras onde trabalhava e depende da cadeira de rodas. Diante das limitações de acessibilidade, ele conta com outro meio para manter o contato com os amigos e parentes: a internet. E é graças à tecnologia que Brito tem conseguido acompanhar o crescimento da sua primeira bisneta: a Thayla, que fará 1 ano no dia 21 de outubro.
“Meu filho estava preparando tudo para trazê-la aqui, e eu estava contando os dias. Aí veio a pandemia, e as visitas ficaram restritas. Mas eu tenho plena consciência que é para o nosso bem. Melhor passar por essa dificuldade agora do que não vê-los nunca mais”, desabafa Brito.
Enquanto a tão sonhada visita presencial não vem, ele vai vendo a bisneta por fotos e mantém a conexão diária com os amigos e familiares. “A tecnologia é muito boa. A gente vai interagindo e tentando ocupar a mente”, relata Brito, que antes recebia visitas quase todos os dias.
“Há sete meses que eu não posso entrar. Então, agora é pelo WhatsApp. A gente troca muitas mensagens todos os dias. Se não fosse isso, seria mais complicado”, afirma o filho Adriano Brito, 41.
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